Um hotel com um serviço impecável, no centro histórico de Florença, que nos permite mergulhar numa das melhores coleções de relógios vintage da atualidade? O L’Orologio, de Sandro Fratini, é isso e muito mais.

_

Por Carlos Torres, em Florença

A capital da sedutora região da Toscana assume-se, por direito próprio, como o berço do Renascimento. Para sempre associada à eloquência de Dante Alighieri, à astúcia de Niccolò Machiavelli e ao engenho de Filippo Brunelleschi, Florença é um paraíso para os amantes das artes, sendo a cidade-natal de um dos mais proeminentes colecionadores da história, Cosimo de’ Medici. Percorrer as estreitas ruas da Florença da Idade Média é, pois, deixar-se envolver pela história, numa simulação quase perfeita de uma viagem no tempo ao melhor estilo de H. G. Wells.

O tradicional passeio a pé à monumental e deslumbrante obra de arquitetura que é a Cattedrale di Santa Maria del Fiore, com a sua cúpula de Brunelleschi, leva-nos de passagem pelo magnífico Batistero di San Giovanni (Batistério de São João), com as suas fascinantes portas de bronze, da autoria de Andrea Pisano e Lorenzo Ghiberti.

Daí, somos naturalmente encaminhados, através da Via de’ Cerretani, para oeste, até desembocarmos na ampla Piazza di Santa Maria Novella. À esquerda, a ladear a esquina de um edifício de arquitetura fortificada, similar a tantos outros em Florença, três degraus convidam-nos a transpor uma porta insuspeita, e a entrar num mundo que apenas poderia ter saído da mente de um irredutível colecionador de relógios.

Uma estadia no L’Orologio de Florença acaba, assim, por ser muito mais do que uma noite bem dormida num hotel no centro de uma cidade que transpira história por todos os poros. © Hotel L’Orologio Firenze
Uma estadia no L’Orologio de Florença acaba, assim, por ser muito mais do que uma noite bem dormida num hotel no centro de uma cidade que transpira história por todos os poros. © Hotel L’Orologio Firenze

O hotel L’Orologio

O lobby do L’Orologio recebe-nos com um enorme e invulgar relógio de parede, com escala luminosa de segundos e assinatura da Vacheron Constantin, que revela, desde logo e sem cerimónias, a inspiração relojoeira que dá nome a este notável estabelecimento hoteleiro, cujo proprietário não deverá ser um desconhecido para quem esteve atento à edição de dezembro da Espiral do Tempo.

Sandro Fratini, o discreto colecionador de relógios sobre cuja coleção a Christie’s lançou o livro My Time, é dono de uma fortuna avultada, cuja génese está no sucesso comercial da introdução da ganga nos mercados europeus no período do pós-guerra. É, pois, notável que um homem como Fratini, apaixonado além do razoável pelos seus mais de 2.000 relógios vintage, veja com naturalidade a associação do seu gosto e hobby pessoal a uma das suas áreas de investimento: a hotelaria. Mas engana-se quem pensar que o tema da relojoaria, visível em cada recanto deste encantador hotel, é encarado de forma leviana ou até mesmo banal por Sandro Fratini. O nível de excelência e raridade dos modelos ilustrados em telas pintadas à mão que forram as paredes de salas, corredores e átrios dos diversos pisos do edifício, refletem parte da sua própria coleção que, não nos esqueçamos, é uma das melhores do mundo.

© Hotel L’Orologio Firenze

De resto, torna-se impossível escapar ao tema da relojoaria. Na sala de refeições do último piso — cuja vista desobstruída, possibilitada pela ampla superfície vidrada, destaca a Basílica de Santa Maria Novella — a loiça, entre pratos, copos e jarras de decoração, encontra-se decorada com elementos gráficos retirados de mostradores de modelos da Patek Philippe, Rolex, Cartier ou Universal Genève. A decoração modernista das paredes faz-se igualmente à custa de criações artísticas, inspiradas no famoso padrão piramidal Clous de Paris da caixa dos Calatrava da Patek Philippe, acabando por fazer parte de um jogo que impele o visitante a descobrir, um pouco por todo o lado, elementos decorativos semiocultos, retirados do mundo do colecionismo de relojoaria vintage. De outra forma, como seria possível justificar as torneiras das casas de banho de cada quarto, elementos funcionais que replicam na perfeição uma coroa de corda da Rolex, e que Fratini mandou executar especificamente para o L’Orologio? Mas a experiência relojoeira de exceção proporcionada por este hotel não se fica pelos elementos decorativos, que incluem vitrinas museológicas com memorabilia rara da Patek e da Rolex; quadros com fotografias esplêndidas de detalhes de relógios famosos; ou o bar, cujo chão apresenta um mosaico com alguns dos modelos vintage mais raros da atualidade.

© Hotel L’Orologio Firenze

Logo no processo de check-in, somos confrontados com uma escolha difícil. Podemos, por um lado, optar por um dos quartos que, ao invés de apresentarem os habituais números, adotam referências oficiais e alcunhas de modelos extremamente raros que Sandro Fratini colecionou ao longo da sua vida. Assim, se a sua preferência pender para a casa da coroa, poderá ficar, entre outros quartos, no 6062 Acciaio, 6241 Daytona, 8206 Gabus, 6301 Tritone, 6085 Americhe, 6062 Stelline, 3525 Barilotto, 4764 Cioccolatone ou no 4709 CocaCola. Podemos, por outro lado, não resistir ao apelo sedutor da Cruz de Calatrava, então a escolha torna-se ainda mais difícil, com as opções a incluir quartos com a designação 1518 Acciao, 591 Fagliolino, 1415 Ore del Mondo, 530 Oversize, 130 Settori Rosa, 130 World Time, 2523 Doppia Corona, 1463 Serpico y Laino Nero, 1593 Egitto Farouk, 2497 Secondi al Centro ou 1436 Breguet. Para os mais indecisos, as opções Mystère ou Complicazioni asseguram um elemento surpresa difícil de resistir.

Os quartos do hotel adotam referências oficiais e alcunhas de modelos raros que Sandro Fratini colecionou ao longo da vida. © Hotel L’Orologio Firenze

Uma estadia no L’Orologio de Florença acaba, assim, por ser muito mais do que uma noite bem dormida num hotel no centro de uma cidade que transpira história por todos os poros. É antes um autêntico banho de cultura relojoeira e um mergulho na excecional coleção de Sandro Fratini. Nesta perspetiva, é-me difícil não apelidar o L’Orologio de Hotel Paraíso.